O livro e o filme de mesmo nome, começa com a descrição de um pequeno asteróide chamado B-612, localizado em nossa galáxia. Nesse pequeno astro celeste vive um único garoto que seria solitário se não tivesse sua amiga para conversar e a visita de gansos selvagens que as vezes passavam próximo ao seu asteróide. O Pequeno Príncipe como é chamado o habitante do B-612, trabalha arduamente todos os dias limpando seus três vulcões miniaturas, arrancando as sementes de árvores grandes que são levadas ao asteróide por correntes de ar vindas de outros planetas e cuidando de sua amiga que na verdade é uma pequena e linda rosa.
Nesse trecho podemos perceber que o Pequeno Príncipe trabalha espontaneamente, sem pressa nem obrigação, o faz por amor à sua terra e a si mesmo. Ele trabalha de forma natural, não mais do que o necessário, não torna-se escravo de sua força de trabalho, suas ações corriqueiras é o que Marx chamaria de trabalho que transforma e enaltece o homem.
Deve-se ter noção de que ele é uma criança que nunca cresce, então, esse trabalho é na verdade uma atividade lúdica, da qual ele cria seu mundo imaginário para suprir as necessidades da vida real. Freud diz que nossas forças mentais dividem-se em dois caminhos: o do inconsciente que traz consigo o prazer e o do consciente que traz a realidade. Nessa separação o ser humano acaba vivendo com uma imagem falsa de seu objeto de busca e prazer, o que não lhe traz nenhuma satisfação. A criança por meio da brincadeira, consegue corrigir essa cisão, traz seus desejos para o mundo real e o transforma em seu mundo. A vida real não tem muito de realidade visto que vivemos apenas com um espectro de nossos anseios, a criança consegue unir o mundo real e o da fantasia, mas com o passar do tempo o adulto deixa que a realidade domine a fantasia e perde o contato com a arte da criação de mundos. A personagem do livro/filme nunca cresce, portanto, terá sempre seu lado criança ativo, estará sempre convivendo com dois mundos, essa metáfora é percebida em suas viagens a outros planetas.
A primeira parte do livro/filme (Antoine de Saint-exupéry) mostra-nos o fantástico mundo da criança, o mundo de criações e de invenções de mundos dentro de um outro mundo, como elas criam e representam a todo instante suas criações. Mas os adultos por não entenderem ficam perguntando e opinando o tempo todo. Nesse período é que acontece a morte de muitos futuros talentos, os adultos limitam as crianças, tiram delas seus sonhos, fantasias, desencorajam suas ações e tudo isso por que se vêem incapazes de fazer o mesmo.
O desenvolvimento da criatividade e inteligência da criança é um período complicado, a criança torna-se sensível e suscetível às cisões. Quando uma criança está descobrindo o mundo, unindo realidade e fantasia, necessita de espaço e apoio, pois, caso for contrariada ela esconderá a inteligência que estava desenvolvendo. Por medo de tornar-se diferente e deixar de ser amada e acolhida, abre mão do direito da sua inteligência. Esse choque é tão grande que muitas crianças demoram anos para reunirem coragem necessária para tentar desenvolver novamente aquilo que lhe foi interrompido, em alguns casos isso jamais acontece, se por acaso a pessoa tentar de novo e novamente for podada, certamente esconderá seu talento por mais tempo do que a vez anterior ou para todo o sempre. No decorrer do livro/filme o autor/diretor mostra os adultos que sofrem os efeitos dessa interrupção; são pessoas rígidas que não compreendem a realidade, não possuem objetivos e acreditam que sua postura compulsiva e medíocre diante do conhecimento é o maior aspecto da maturidade. Adorno (filosofo alemão da escola de Frankfurt) trabalha com o tema de emburrecimento da criança, ou as podas que fazemos com elas.
O pequeno príncipe dá muito valor à individualidade, mostra o quão belo é o deserto somente por possuir um poço em algum lugar que não se pode ter certeza de onde é, diz que não importa o número de rosas que cultive se não pode encontrar o que procura, bastaria cultivar uma e encontrar sentido nisso. A individualidade é um detalhe que nos torna únicos, o que nos leva a pensar que para isso valer, necessita-se de outro indivíduo.
Numa de suas viagens à Terra, o pequeno príncipe conhece uma raposa que em determinada conversa com ele diz que, o essencial é invisível aos olhos. São os detalhes, ou o envolvimento que temos com o objeto, nunca seremos felizes se buscarmos incessantemente a felicidade.
Enquanto esteve no deserto o pequeno príncipe conversou com uma serpente, ele disse que se sentia só no deserto e queria encontrar os homens, mas a serpente lhe diz que entre os homens também nos sentimos só.
No livro nem tanto, mas no filme a sepente se mostra totalmente demoniaca, se repararmos bem nas músicas que ela canta, podemos perceber que a serpente está se denominando "o diabo", sim a mesma serpente do Éden.
Acreditamos que a individualidade serve para separar as pessoas, para sobrepor umas às outras, quando na verdade esta serve para tornar uma pessoas amada e fazer com que outra ame. Os adultos possuem enorme dificuldade de entender isso e fazem da individualidade uma completa solidão, o que vai totalmente contra o objetivo de sermos únicos.
O filme traz uma comparação muito boa com os animais que o pequeno principe encontra e suas caracteristicas, sempre representadas por um ser humano. Tanto que quando o guri encontra o humano, ele diz que pensava que todas as pessoas do planeta Terra, fossem serpentes, isso por ter sido ela a primeira forma de vida com quem ele teve contato.
O livro/filme trata do universo infantil e como nós adultos temos uma participação em seu desenvolvimento, fala também do nosso universo, como o vemos ou no caso deixamos de vê-lo, da importância que damos para certas coisas as quais viveríamos melhor sem, ou seja, de como aprendemos a ser adultos e ficamos cada vez mais distantes da realidade buscando o nada.
Esse é um dos livros/filmes que estarei sempre adicionando informações, bem aqui nesse campo.
ResponderExcluirSeria interessante fazer a comparação dos personagens do livro com os do filme, não acha? Apresentam caracteristicas semelhantes mas os estereotipos sao diferentes.
ResponderExcluirVocê é muito versatil, fala de tudo.
rs