O filme conta uma história fictícia, onde toda a população de uma cidade é afetada por uma estranha epidemia. Trata-se de uma cegueira. Diferente da idéia tradicional que carregamos de que os cegos vivem na escuridão total, esta é uma cegueira branca. O filme é uma adaptação da obra homônima escrita por José Saramago.
Logo no início, um homem fica cego repentinamente, depois dele um a um, os cidadãos vão sendo infectados por essa epidemia, sem a menor explicação cientifica.
A película nos traz inúmeras informações importantes para compararmos com nossa realidade, entende-la um pouco melhor e se possível evitar algumas coisas.
Nossa sociedade é centrada na visão, este talvez seja o sentido mais importante ou mais explorado por nós, para ter uma dimensão disto, basta uma caminhada de dez minutos pelas ruas da cidade e notaremos uma infinidade de cartazes, outdoors, panfletos, grafites, anúncios em televisões nos transportes coletivos, sem falar na coloração de objetos e comércios. Nossa sociedade é dependente da propaganda visual. Não só da propaganda, mas da visão, até mesmo numa conversa nós falamos ao outro “veja bem” ou “Quer que eu desenhe?” para frisar nossas palavras.
Estamos sobrecarregando o sentido da visão, esquecendo dos outros. Existem estudos que permite definir uma pessoa somente pela gesticulação, basta observa-la e em poucos minutos pode-se dizer como é a personalidade dela. É assustador pensar numa epidemia como a que é retratada no filme, pois, dentro de algumas horas nosso mundo seria tomado pela barbárie, visto que somos praticamente incapazes de organizarmo-nos sem usar esse sentido.
Podemos perceber na história do filme, a influência que o Liberalismo tem em nossa vida. Assim que surge uma oportunidade um rapaz começa colocar preço na comida que era entregue a todos. A ambição pelo poder também é encontrada na obra, quando o rapaz que assume o titulo de rei, quer que todos o obedeçam e elimina qualquer tipo de assistência, fazendo com que a concorrência cresça a cada minuto e é óbvio que só os mais fortes (ou mais armados no caso) sobreviverão. Numa outra cena as pessoas começam definir propriedades, desenvolvendo egoísmo e aniquilando os competidores (no mercado).
Numa outra cena, mostra o líder dos internos fazendo um discurso, dando o valor de cada refeição, algumas pessoas ficam revoltadas com a atitude dele, mas devido a ele possuir uma arma de fogo, aceitam suas condições. Nos corredores, voltando cada um para sua ala, um rapaz comenta com outro que não obedeceria ao líder por ele ser negro, nesse exato momento podemos perceber o racismo contido no homem que fez o comentário, pois, mesmo incapacitado de ver a cútis do opressor, ele julga suas ações colocando como errado, injusto, oportunista, e desumano aquela raça a qual ele nutre um ódio irracional.
O sectarismo é outro ponto forte do filme. Todas as pessoas que contraíam a exótica doença eram encaminhadas a um manicômio antigo e abandonado, nem todas eram levadas de modo sutil, a intolerância falando mais alto nos militares faz com que usem de métodos violentos para capturá-los e mantê-los no prédio. As próprias pessoas começam a evitar contato com os infectados e isolam os doentes, como se fosse uma grande apartheid.
Uma característica muito importante do filme que foi mantida desde a obra original, é que nenhum personagem possui de fato um nome, todos eles são conhecidos pela profissão que exerce ou por algum adjetivo, como a moça de óculos, o japonês, o rapaz que roubou o carro, o doutor, a criança, a contabilista e daí por diante.
O fato de ninguém ter um nome definido pode ser compreendido de diversas formas, eu tratei desse assunto pensando que se existir alguém que não possa ver talvez essa pessoa tenha mais ou menos importância para mim. Nem tudo que damos um nome pode ser visto, nem tudo o que vemos podemos distinguir apenas por nome. O nome é algo forte, pois, está associado ao sentido da visão (ou da comprovação no caso de quem não pode ver). No filme o nome das pessoas é totalmente descartado, nem mesmo nas relações sexuais elas se reconhecem por nomes. Quando se tira o nome de uma pessoa, torna-se mais difícil descreve-la, pois, teremos de prestar mais atenção nos detalhes peculiares, o que não fazemos no cotidiano, mesmo explorando a visão mais do que os outros sentidos, ela só é usada para ver a superficialidade, a aparência generalizada. Quando algo possui um nome, mesmo estando distante, pode ser lembrado unicamente pelo nome, quando não tem torna-se necessário sua presença.
A estética desaparece quando não temos um padrão visual no qual nos apoiar. Todos se tornam lindos quando nenhum pode ver o outro. Ao menos uma igualdade estética é possível de ser estabelecida, devido não haver necessidade de expressa-la e ninguém que lucre com a mesma.
Rousseau dizia que o ser humano nasce bom, mas a sociedade o corrompe. No filme temos um exemplo que se aproxima disso, no manicômio havia um cego de nascença que trabalhava para o auto proclamado líder, como contabilista. Ele nasceu com deficiência visual e foi excluído de muitos eventos sociais, como todos aqueles que não se encaixam no parâmetro social, mesmo sabendo que todos ali sofriam do mesmo mal ele se presta a extorqui-los, isso por ter se juntado ao grupo que começou a dominar o local de forma opressora, caso tivesse ficado no lado oposto teria um discurso favorecendo os enfermos. A esposa do doutor sempre foi uma pessoa gentil e dócil, mas depois de passar por humilhações ela revida com violência. O âmbito social pode mudar realmente o que as pessoas pensam.
O casal japonês possui uma religião tradicional e conservadora. Diante das dificuldades a mulher passa por cima de seus valores culturais para garantir a sobrevivência de todos, mesmo o marido não aceitando tais ações. Os valores culturais estão presentes em todos, mesmo estando todos na mesma situação cada um carrega suas particularidades.
A violência gratuita é apresentada no filme através das ações policiais, capturando as pessoas nas ruas e casas, mantendo presos os infectados mesmo que fosse necessário atiram neles por saírem de uma fila indiana.
Existem muitos focos de violência na obra, por exemplo, brigar e matar por comida ou tomar o poder de assalto. No caso do último exemplo citado, os internos unem-se para destronar os opressores, ferem e matam seus semelhantes, mas por um bem comum. Muitos autores tratam esse tipo de violência como antiética ou desumana, outros dizem que é necessária para que haja paz, se não exterminar as fontes de opressão nunca poderá desfrutar de uma paz em conjunto. Nessa obra notamos uma pitadinha de Marx.
Uma cena muito interessante no filme é a que mostra que a felicidade e a tristeza podem coexistir. As pessoas estão reunidas conversando sobre os últimos ocorridos. Todos perderam a visão repentinamente, tiveram suas vidas modificadas sem nenhuma explicação, não possuem esperanças, estão todas tristes, mas um homem possui um rádio o qual coloca para tocar música e todos compartilham do mesmo momento de felicidade, mesmo possuindo gostos musicais diferentes.
Noutra cena, os internos tentam telefonar para um órgão responsável por enviar algo que eles precisassem, mas ninguém respondia do outro lado da linha. Um homem tem uma ferida que começa infeccionar o casal responsável por umas das alas tenta dialogar com os soldados que faziam a segurança do local para obter remédios para o rapaz e são ameaçados de morte. Essas cenas nos mostram o descaso do Estado pela população. A cegueira coletiva era tratada como uma doença epidêmica pelas autoridades mundiais, mesmo assim, a única extensão do Estado que chegava até os doentes, era a policia.
As personagens do filme vão interagindo o tempo todo e dessa interação vão surgindo relações de amizade ou não. Nenhum sentimento nosso é duradouro o suficiente para se dizer eterno, basta que mude o local e as pessoas de convivência e tudo começa reciclar-se naturalmente.
As pessoas que estavam presas no prédio abandonado tinham medo de saírem no pátio, por conta da guarda, fugir estava fora de cogitação. Nesse momento nota-se uma relação com a obra de Foucault, “Vigiar e Punir”. Se não podem ver aqueles que te vigiam é melhor que não tente nada contra eles, mesmo não tendo ninguém na guarita eles não tentavam fugir por não terem certeza e nessa incerteza acabavam por vigiarem a si mesmo.
As imagens de santos na Igreja estão todas vendadas. Aqui podemos ver uma humanização das divindades, desde a Grécia antiga que os deuses possuem formas humanas, na realidade do filme eles estão cegos assim como toda a população. Fazemos isso com extraterrestres também.
Na Bíblia existe uma história de um cobrador de impostos chamado Paulo, por cometer muita brutalidade e ser alguém rancoroso, recebe de Deus um castigo, fica cego e só depois de arrepender-se e mudar de nome é que tem de volta sua visão. Nesse livro especifico a religião procura conscientizar as pessoas, dizendo que a maldade cega (no sentido figurado) as pessoas e para voltarem a ser boas precisam enxergar o mundo de outra maneira, redimir-se de seus erros. No filme é uma questão de experiência, quando se fica uma temporada sem ver nada, ao voltar ao normal terá uma nova concepção de mundo.
O diretor foi brilhante quando pensou em filmar esta obra em diversas cidades, pois, assim traz para perto de nós essa possível realidade, sentindo mais perto da catástrofe, o medo e a reflexão são maiores.
Um outro detalhe muito importante é a única mulher que não foi afetada pela cegueira estar guiando os demais dentro e fora do prédio, o que pode ser compreendido de muitas maneiras, talvez o futuro da nação esteja nas mãos de uma liderança feminina, e a nação a qual me refiro é a humanidade, mas os pequenos focos crescerão.
A guia dos cegos pode ser vista como a imagem da mulher emancipadora, tendo visão significa que está à frente dos demais, guia-los para a evolução, para fora da barbárie é o papel de qualquer pessoa que deseja o bem comum. Em outros tempos esse papel seria de um homem, mas nossa realidade está diferente, evoluída, e podemos pensar na mulher como agente social. Podemos esperar mudanças vindas de pessoas que historicamente foram oprimidas e inferiorizadas. Essa mulher no filme pode ser compreendida como a mulher liberta e evoluída.
No final, cada pessoa vai recuperando a visão, uma após a outra, e a mulher que nunca ficou cega pensa agora estar ficando. A única pessoa que não passou pela experiência da falta de visão teria a oportunidade de compreender como é estar naquele patamar? Talvez teoricamente, mas caso não fique cega, fisicamente, mentalmente ela será, pois, essa “visão” de mundo ela nunca terá.
Depois de escrever apontando tantos aspectos importantes para nossa realidade atual e mundial, seria desnecessário dizer que o livro e o filme são obras maravilhosas.
(Rei Kinomoto e Rodrigo Ribeiro)
Gostei!
ResponderExcluirAdorei!
Maravilhoso!
Acredite se quiser, mas só depois de ler isso é que fui assistir ao filme de novo e comprovar o quanto havia perdido ao ve-lo a primeira vez.
ResponderExcluirUm ótimo filme e um ótimo texto analitico.